Personagens 2

Personagens como metáforas da consciência humana

O escritor Robert Mckee diz que histórias são metáforas da vida, ou seja, uma história é como um símbolo que o escritor usa para representar a forma como ele julga o comportamento de certos personagens, as circunstâncias que causaram certas situações e a complexidade de certos temas. Se histórias são metáforas da vida, personagens são metáforas da consciência humana.

Nossas características físicas, nossa personalidade e nossa identidade mudam ao longo dos anos.

Em cada fase da vida, somos desafiados a nos adaptarmos às circunstâncias pessoais e sociais em que nos encontramos. Mas de alguma forma, temos um senso de que seguimos sendo nós mesmos. Por quê? Não é pelo o conteúdo da nossa mente, que está em constante mutação, mas pela a forma como processamos informações, ou seja, a nossa consciência. 

Podemos definir consciência como experiência subjetiva, nossa capacidade de perceber, compreender e interpretar as circunstâncias em que nos encontramos. Quando afirmo que personagens são metáforas da consciência humana, isso significa que cada personagem simboliza uma forma particular de perceber, compreender e interpretar as circunstâncias em que eles se encontram. 

Basicamente, a consciência humana opera dirigindo sua atenção para potenciais fontes de prazer e dor e fontes de segurança e ameaça, seguindo um conjunto de regras e critérios de avaliação criados com base em experiências passadas.

Um personagem, portanto, representa uma forma particular de experimentar e interpretar a realidade e reagir a tudo o que acontece ao seu redor.

Essa definição é importante porque muitos escritores acreditam que definir características físicas, traços de personalidade e rótulos identitários é suficiente para a criação de personagens.

Tais informações representam apenas as camadas mais superficiais do que constitui uma pessoa. A substância de um personagem está na forma particular como ele age e reage ao mundo, guiado pelo “código de conduta” que criou para si mesmo com base em suas experiências passadas.

Diante disso, eu diria que personagens nunca são criados, mas sim descobertos. Se você decide escrever sobre um adolescente, talvez você já tenha decidido que ele tem cabelos loiros. Tal informação representa apenas uma semente de personagem. Você só vai ter pistas de quem esse rapaz é, de fato, quando começar a imaginar o impacto que essa característica física tem na vida dele. 

Se o personagem mora em um vilarejo pequeno e isolado no interior do país onde absolutamente todo mundo tem cabelos pretos, podemos imaginar que uma pessoa loira deve despertar a curiosidade alheia. Esse rapaz gosta da atenção que recebe pela cor de seu cabelo e se sente especial? Ou ele detesta ser o centro das atenções e odeia ser diferente de todo mundo?

Perceba como cada reação revelaria um personagem diferente, ainda que a característica física que serviu como inspiração para criá-lo seja a mesma. 

Ao escolher as informações que vai compartilhar com o leitor sobre um personagem, priorize aquelas que têm o potencial de revelar algo relevante para o entendimento de como a consciência dele funciona, como suas crenças e pressuposições interferem na forma como ele organiza sua vida, como essa máquina de criar sentindo dentro da cabeça dele cataloga, interpreta, julga e atribui valor e significado a tudo ao seu redor.