Personagens 1

Características, personalidade e identidade

Ideias de personagem geralmente surgem na forma de características, traços de personalidade ou rótulos identitários.

Características

Características são atributos físicos externos, observáveis, superficiais. Alto, baixo, gordo, magro, loiro, moreno, bonito, feio, formal, informal, criança, adulto, bem vestido, mal vestido etc.

Se o que inspirou você a escrever sobre um personagem foi uma característica física, comece a se fazer perguntas que o ajudem a criar uma imagem mais concreta desse personagem na sua mente. 

Se você decidir que sua personagem é uma mulher formal, considere: Que características físicas representam essa formalidade? É a forma como ela se veste? É a forma dura e artificial como ela se movimenta? É o tom de voz e as palavras que ela usa quando fala? Como você poderia descrever essa mulher de forma a fazer com que o leitor conclua que essa personagem é, de fato, formal, sem que você precise usar tal adjetivo para descrevê-la? 

A personagem acredita ser uma pessoa formal ou, apesar de sempre escutar isso de amigos e familiares, ela se considera uma pessoa informal? Por quê? Como essa percepção sobre si mesma impacta suas relações? Perguntas como essas podem guiar você a desenvolver sua ideia de personagem com base em uma característica física.

Personalidade

Personalidade é nosso corpo social, são as qualidades e defeitos que outras pessoas associam a nós, baseadas na forma como elas interpretam nossas falas e comportamentos. Proativo, metido, flexível, manipulador, simpático, interesseiro, humilde, esnobe, confiante, inseguro etc.

Desenvolvemos nossa personalidade com base nas interações que tivemos com outras pessoas e nas nossas experiências passadas. Concretamente, existimos no mundo e criamos nossa realidade através das nossas ações e reações recorrentes. Ou seja, nossa personalidade define a forma como respondemos às demandas do mundo externo.

Se você decidir que seu personagem é alguém impaciente, considere: Que tipo de situação deixa ele impaciente? Como a impaciência dele se manifesta em seus comportamentos? Em que momentos ele se vê obrigado a controlar sua impaciência?

Como você poderia descrever esse homem de forma a fazer com que o leitor conclua que este personagem é, de fato, impaciente, sem que você precise usar tal adjetivo para descrevê-lo? O que essa impaciência revela sobre o tipo de pessoa que ele é? Perguntas como essas podem guiar você a desenvolver sua ideia de personagem com base em um traço de personalidade. 

Identidade

Identidade é a imagem que temos de nós mesmos, são as qualidades e defeitos que associamos a nossa personalidade, os rótulos que usamos para descrever quem somos (e quem não somos), as referências que consideramos relevantes para julgar nosso valor como pessoas. 

É através das nossas múltiplas identidades que criamos um senso de pertencimento a certos grupos sociais e a certos tipos de pessoa. Introvertido, extrovertido, atraente, inteligente, burro, paciente, irritadiço, criativo, exibido, médica, professora, publicitário, faxineiro, astronauta, escritora etc. 

Desenvolvemos nossa identidade a partir dos tipos de validação e repreensão que recebemos ao longo dos anos e do significado que damos para nossas memórias e experiências passadas, dentro do contexto de nossa vida presente e nossos desejos para o futuro. 

Nossas memórias são os pilares da nossa identidade. O que nos lembramos do nosso passado é o que nos dá um senso de constância e continuidade que nos permite construir uma narrativa coerente de quem fomos, somos e desejamos ser. Subjetivamente, existimos no mundo e criamos nossa realidade através dos nossos pensamentos e emoções recorrentes.

Além de registrar eventos passados, outra função importante e reveladora das nossas memórias é servir como referencial para a compreensão e a interpretação de eventos presentes. Isso significa que a forma como lembramos e compartilhamos um evento do passado dá pistas da imagem que temos de nós mesmos no presente. 

Não vemos o mundo como ele é, mas sim como nós somos. Em outras palavras, nossa identidade define a forma como respondemos às demandas do nosso mundo interno. 

Se você decidir que sua personagem tem muito orgulho de ser professora, considere: Ela escolheu essa profissão voluntariamente ou se tornou professora por acaso? Por que ela sente tanto orgulho de sua profissão? Esse orgulho é permanente ou circunstancial? Qual a maior ambição profissional dessa professora?

Que crenças e valores servem de base para que essa professora exerça sua profissão? Qual a opinião das pessoas que fazem parte da vida dessa mulher (alunos, colegas de trabalho, família, amigos) sobre a profissão dela? Como a vida dela mudaria se, por algum motivo, ela não pudesse mais lecionar? Perguntas como essas podem guiar você a desenvolver sua ideia de personagem com base em um rótulo identitário.

Seja a semente que inspirou você a começar a escrever uma característica física, um traço de personalidade ou rótulo identitário, procure pensar sobre seu personagem fora do contexto de uma história. Nesse primeiro momento, não se preocupe com o enredo, os conflitos, os cenários ou mesmo os temas que você deseja expressar ao longo da narrativa. Procure olhar para seu personagem como um outro ser humano, ao invés de um mero ingrediente de uma trama.

 

Acumular Ideias x Conectar Ideias

Uma história é um apanhado de informações sobre personagens, conflitos, situações, cenários e temas que você compartilha com o leitor. ⁣Você administra o fluxo dessas informações decidindo, em cada passagem, o que revelar, o que reter e o que esconder. É isso o que cria uma experiência de leitura particular.⁣

Quando um texto simplesmente acumula informações, passa a sensação de que todas elas têm a mesma importância. Isso gera o efeito contrário: nenhuma informação parece ter importância. ⁣A arte da escrita está na habilidade de criar uma hierarquia de informações, estabelecendo a ideia mais importante em cada passagem e conectando ideias suplementares que a enriqueçam e a aprofundem.

Um texto ganha mais força e impacto quando cria a sensação de “descobertas pertinentes”. Isso significa que cada passagem ajuda o leitor a reconhecer intuitivamente que a escolha de compartilhar certas informações é intencional, não acidental.⁣ Não lemos apenas para entender, queremos entrar no universo de ficção.

Para colocar o leitor dentro da história – sobretudo no início do texto – você precisa estabelecer uma hierarquia de informações que, como um striptease, revela estrategicamente uma coisa de cada vez.⁣ Portanto, ao começar um texto apresentando um personagem, escolha o traço que você considera mais peculiar ou interessante sobre ele e conecte todas as outras informações que você compartilhar sobre ele a esse traço.