Enredo 3

Os 2 momentos mais intensos de todo enredo

O enredo de uma história tem dois grandes marcos estruturais: o primeiro ponto de virada e o clímax. Para entender a importância e a função desses dois acontecimentos na narrativa, imagine uma ponte suspensa com dois pilares.

Tudo o que está na parte esquerda da ponte, antes do primeiro pilar, é uma introdução ao universo de ficção da história, onde o foco é apresentar e caracterizar o protagonista e outros personagens importantes. O primeiro pilar dessa ponte é o primeiro ponto de virada, o momento em que um determinado acontecimento desestabiliza a vida do protagonista em algum nível, desperta nele um desejo e dá para o leitor um senso da direção em que a narrativa vai seguir.

O meio da ponte, entre o primeiro e o segundo pilar, é o corpo da história, onde o foco é, progressivamente, complicar e intensificar o conflito introduzido no primeiro ponto de virada e mostrar as tentativas do protagonista para resolvê-lo. O segundo pilar é o clímax da história, onde o foco é mostrar o protagonista enfrentando o momento mais intenso e crítico do conflito. O que vem depois do segundo pilar, na parte direita da ponte, é a resolução da história.

Esses dois marcos do enredo, o primeiro ponto de virada e o clímax, são os acontecimentos de maior impacto na estrutura do texto.

Eles representam, respectivamente, o momento em que o escritor determina a relevância do conflito do personagem (criando certas expectativas no leitor) e o momento em que ele expressa a essência da história (correspondendo, frustrando ou surpreendendo as expectativas do leitor). Expectativa é um conceito fundamental nesse contexto e, por isso, é importante que você entenda a definição deste termo em mais detalhes.

Digamos que você vai à festa de aniversário de um tio rabugento, simplesmente para ser educado, imaginando que vai ser uma chatice sem tamanho, mas você acaba se divertindo mais do que imaginava. Como suas expectativas eram baixas, qualquer acontecimento positivo inesperado tem um peso maior.

Agora digamos que seu tio é super divertido e as festas de aniversário dele são sempre fantásticas. Você está antecipando esse dia há meses, imaginando o quanto vai se divertir. Como suas expectativas são altas, qualquer acontecimento negativo inesperado tem um peso maior.

Nos dois casos, você criou uma simulação mental de como seria a experiência. Se o que aconteceu correspondeu ao que você imaginava, você talvez mencione sua ida ao aniversário para alguns amigos, sem grande entusiasmo. Mas se o que aconteceu foi muito diferente do que você imaginava, você vai relatar o que aconteceu como uma história, carregada de emoção e excitação.

Uma história é um acontecimento (ou uma série de acontecimentos) que surpreende as expectativas do protagonista. 

Então o que são expectativas? São modelos mentais que carregamos sobre o mundo, são as referências e os valores aos quais comparamos tudo o que nos acontece para formar nossa opinião. Criamos nosso repertório de expectativas ao longo de toda a vida. As experiências que tivemos na infância (mesmo as que não lembramos), na adolescência e na vida adulta formam uma rede de conexões singular, uma forma única de olhar para o mundo.

Nossas percepções são profundamente influenciadas por nossas expectativas. Toda vez que julgamos nossas interações com as pessoas ou com o mundo, comparamos a realidade, o que acontece de fato, com o que acreditávamos que iria acontecer. A diferença entre expectativa e realidade indica o grau de intensidade emocional e impacto que damos as nossas experiências.

Clichês nos incomodam tanto justamente porque nos oferecem algo que já sabemos ou esperamos, o que resulta em experiências de baixa intensidade emocional e impacto.

Como, então, podemos criar experiências de alta intensidade emocional e impacto em histórias de ficção? Considerando cuidadosamente a escolha dos dois grandes marcos estruturais do enredo, já que esses momentos criam os modelos mentais que servirão de referência para o leitor decidir, primeiro, se vai seguir lendo o texto e, segundo, sua percepção final sobre a história e se a leitura valeu a pena. Abaixo, alguns pontos para você considerar:

Primeiro ponto de virada

– Que acontecimento concreto provoca uma reação do protagonista?

– Esse acontecimento coloca o personagem sob pressão e o força a reagir imediatamente? Que reação é essa?

– Como esse acontecimento afeta concretamente, psicologicamente ou socialmente a vida do personagem?

– Que expectativas o ponto de virada cria no leitor sobre o que vai acontecer na história?

– Que nível de conflito (psicológico, físico, pessoal ou social) oferece uma perspectiva original sobre o tema da história? Como você pode desenvolver o texto de forma a explorar o conflito do ângulo mais inesperado e imprevisível?

Clímax

– Qual é o momento mais intenso da história, quando descobrimos se o protagonista vai ou não alcançar o desejo/objetivo que o acontecimento do ponto de virada despertou nele?

– Como você pode surpreender as expectativas do leitor sobre como a história vai se resolver de uma forma que ele não poderia imaginar mas, ao mesmo tempo, faz sentido porque usa com base detalhes incluídos ao longo do enredo que passaram desapercebidos?

– O que muda na vida do protagonista quando comparamos quem ele era antes do primeiro ponto de virada e depois do clímax?

– O que muda na visão do leitor sobre o tema central quando comparamos o que ele sabia quando começou e terminou de ler o texto?

– Que acontecimento, situação, imagem, informação ou conceito sintetiza a essência do que você está tentando expressar e ajudará o leitor a entender o sentido da história e como tudo se encaixa? Qual o momento em que a ideia-chave do texto faz sentido?

Não olhe, entretanto, para o primeiro ponto de virada e o clímax da história como elementos que você precisa decidir antes de começar a escrever. Tentar impor uma estrutura específica a uma ideia pouco madura pode limitar as possibilidades de desenvolvimento da narrativa.

Foque, primeiro, em clarificar que história você quer contar. Só então considere que acontecimentos teriam força o suficiente para motivar o leitor a cruzar a ponte que você ergueu.