Conflito 3

A diferença crucial entre contar e mostrar em histórias

A escritora Nalo Hopkinson compartilha neste ótimo vídeo do Ted-Ed que textos de ficção precisam nos enfeitiçar, precisam criar uma ilusão momentânea de que estamos vivemos no mundo da história. Um escritor habilidoso consegue envolver nossos sentidos e nos ajudar a criar simulações mentais vívidas das experiências pelas quais os personagens estão passando.

Filmes, séries de tv e peças de teatro envolvem alguns dos nossos sentidos diretamente. Nós vemos e escutamos as interações entre os personagens e o cenário. Mas em prosa ficcional, tudo o que você tem são símbolos estáticos em uma página. O seu trabalho como escritor é ajudar o leitor a transformar essa sequência de símbolos abstratos em imagens e sensações mais concretas.

Se você usa somente linguagem abstrata e imprecisa para descrever elementos que compõem o universo de ficção e as ações, pensamentos e emoções dos personagens, o feitiço que faz o leitor se imaginar no mundo da história corre o risco de ser fraco. O que diferencia um texto envolvente de um texto apenas “interessante” é, justamente, a habilidade do escritor de descrever detalhes com precisão.

Basicamente, você pode escolher entre duas formas de descrever: contarmostrar. A diferença entre utilizar uma forma ou outra está no efeito que você deseja provocar no leitor em cada passagem.

Contar evoca pensamentos abstratos.

Contar é oferecer fatos, é uma forma de narrar concisa. Ao invés de descrever algo em detalhes, o escritor sintetiza em poucas palavras as informações que deseja passar para o leitor naquele momento da história.

Contar acelera o ritmo da narrativa e usa linguagem imprecisa, permitindo ao escritor condensar o tempo ou uma ideia em algumas poucas frases ou parágrafos. Contar oferece para o leitor somente as informações que ele precisa para se orientar em uma passagem.

Exemplo 1 – Foco no Personagem:

“Marta caminhava alegre pelo parque. Era a primeira vez que se sentia feliz de verdade.”

Exemplo 2 – Foco no Cenário:

“Era uma casa suja, com um jardim mal cuidado.”

Repare em como o escritor entrega as informações já digeridas para o leitor, como certos detalhes são deixados de lado, como ele descreve de uma forma genérica, no primeiro exemplo, o que a personagem está sentindo e, no segundo exemplo, a aparência de uma casa.

Mostrar evoca imagens concretas.

Mostrar, por outro lado, diminui a velocidade da narrativa e usa linguagem concreta para expandir detalhes relevantes sobre algum aspecto do texto, evocar imagens mais vívidas e sensações mais específicas, colocando o leitor dentro do universo da história. 

Exemplo 1 – Foco no Personagem:

“Marta nunca havia usado os músculos do rosto daquele jeito. Sorrisos para ela eram como bocejos. Sua boca ganhava vida própria e espelhava os movimentos dos lábios das outras pessoas. Era um reflexo, um gesto social, uma forma de ser educada. Mas naquela terça-feira de outono, caminhando sem pressa no parque, ela sentia pela primeira vez a tensão delicada de um sorriso genuíno, espontâneo, que era para ela mesma e para mais ninguém.”

Perceba como a passagem acima permite ao leitor entender o contexto emocional do que está acontecendo e revela aspectos mais profundos sobre a personagem. Perceba também como o escritor desacelera essa caminhada no parque para chamar nossa atenção para detalhes específicos, que caracterizam o sorriso alegre de Marta.

Todas essas informações estavam embutidas na frase “Marta caminhava alegre pelo parque”. O que o escritor fez na segunda versão foi se colocar no lugar da personagem para ajudar o leitor a ter uma ideia mais clara do que ela estava sentindo naquele exato momento.

Ao mostrar a alegria da personagem, o sorriso deixa de ser apenas um sorriso. Ele é um marco na vida de Marta porque ela finalmente entendeu o que é se sentir feliz de verdade. Por ser um momento importante na história, o escritor diminui o ritmo da narrativa para indicar ao leitor a relevância daquele evento.

Exemplo 2 – Foco no Cenário:

“A casa 613 era um dente sujo estragando o sorriso de casas brancas na Rua Almeida de Barros. As trepadeiras secas cobriam parte do telhado e da fachada, quase escondendo as janelas do segundo andar. Em frente à entrada, um jardim de terra dura, grumosa, e uma única árvore que mal se aguentava de pé. Era um sertão em plena cidade tropical.”

Perceba como a passagem acima permite ao leitor imaginar essa casa com mais clareza, evocando imagens concretas que sugerem a ideia de desleixo, abandono, isolamento, solidão. Perceba também como o escritor indica a importância dessa casa para a história ao descrevê-la com detalhes mais específicos.

Todas essas informações estavam embutidas na frase “Era uma casa suja, com um jardim mal cuidado.” O que o escritor fez na segunda versão foi se imaginar em frente àquela casa e encontrar uma forma de usar a descrição do local para criar uma atmosfera de mistério na cena.

Contar comunica. Mostrar exemplifica. Contar fornece informações. Mostrar ilustra sensações. Contar é genérico. Mostrar é específico. Contar é levar um soco na barriga. Mostrar é sentir o punho enrijecido empurrando a feijoada de volta para a garganta.

Contar é dar pistas para o leitor entender o que o personagem está sentindo. Mostrar é fazer o leitor se sentir como o personagem.

Especificidade é a palavra-chave aqui. Para descrever os personagens, cenários e momentos importantes da sua história de uma forma mais vívida e precisa, foque nos seguintes pontos:

»» O modo automático de pensar da maioria das pessoas é geral, superficial e abstrato. Se esforce para observar particularidades e peculiaridades. Qualquer pessoa pode descrever um homem como jovem e bonito. Como os comportamentos e a aparência desse homem revelam sua juventude? Que características físicas, especificamente, tornam esse homem bonito?

»» Use a identidade e a personalidade do protagonista como filtro para decidir que detalhes precisam ser melhor desenvolvidos. A história de um professor impaciente exige detalhes e descrições diferentes do que a de um médico medroso.

»» Suas palavras são os olhos, os ouvidos, o nariz, a boca e a pele do leitor. Escreva para os cinco sentidos, não incluindo detalhes para todos os sentidos em todas as suas descrições, mas selecionando apenas detalhes que possam enriquecer e clarificar o que você deseja expressar para o leitor naquele momento exato da história. Muitas vezes, usar um único sentido para descrever uma passagem enriquece a experiência do leitor.

»» Para diminuir o ritmo do texto, ao invés de compartilhar mais informações em menos detalhes, compartilhe menos informações em mais detalhes. Considere que descrições podem ajudar você a criar uma certa ambientação, dar mais profundidade para o que está acontecendo ou dar mais textura para a narrativa.

»» Ao invés de inserir listas enumerando informações sobre o cenário ou os personagens, misture descrições com ações. Descreva o calor de um dia ao mencionar o personagem esfregando uma pedra de gelo na nuca. Descreva a cauda do vestido de uma personagem no momento em que ela fica presa na porta e se rasga.

»» Procure por passagens vagas nos seus textos (preste atenção especial aos advérbios e adjetivos) e as reescreva com o objetivo de ser mais preciso na forma como expressa suas ideias. Experimente descrever usando apenas verbos e substantivos ou usando metáforas e comparações.

»» Considere a possiblidade de escrever diálogos que ilustrem as opiniões dos personagens no contexto de uma cena, ao invés de explicar o que eles pensam de uma forma abstrata.

Como decidir quais os momentos certos para contar ou mostrar?

Uma das formas como o escritor indica a importância de certos elementos da história para o leitor é através do número de palavras que ele usa para descrevê-los. Uma página inteira dedicada para falar sobre a importância de um sorriso ou a aparência de uma casa é um sinal de que tais informações são extremamente relevantes. Quando, no entanto, o escritor dedica muitas palavras para descrever informações que são irrelevantes para a história, ficamos com a sensação de que ele está “enchendo linguiça”.

O escritor precisa escolher que informações compartilhar com o leitor em cada momento da história de forma a aprofundar seu interesse no que está acontecendo ou está para acontecer. Quanto mais consciente você estiver da função de cada passagem do texto e das imagens e sensações que deseja evocar na mente do leitor, mais sensibilidade terá para editar a narrativa a partir de um entendimento sobre que momentos exigem que você conte o que está acontecendo e que momentos exigem que você mostre o que está acontecendo.

Contar demais pode tornar o ritmo da narrativa muito acelerado, dificultando que os leitores se envolvam com os personagens. Mostrar demais pode tornar o ritmo da narrativa muito lento, impedindo que os leitores possam, eles mesmos, imaginar certos detalhes da história, um dos grandes prazeres da leitura.

Histórias precisam de contraste. Se todas as cenas de uma narrativa usam metáforas e descrições minuciosamente detalhadas, o texto pode se tornar enfadonho e melodramático. Se todas as cenas de uma narrativa são explicadas e resumidas, o texto pode se tornar seco e sem vida.

O grande desafio é encontrar um equilíbrio entre essas duas formas de apresentar informações, procurando envolver o leitor emocionalmente e, ao mesmo tempo, avançar no enredo da história.