Cenários 2

Cuidado com adjetivos e certos tipos de advérbio

Muitas pessoas descobrem o Ficção em Tópicos em suas pesquisas na internet em busca de dicas e técnicas de escrita. Recebo muitas mensagens de aspirantes a escritor que, após a leitura de vários artigos do site, começaram a se sentir ansiosos ao descobrir a infinidade de conceitos e técnicas relacionados à criação de histórias. Eles querem saber como é possível escrever mantendo todas essas informações em mente.

Eis minha resposta. Se você tentar escrever com todos esses conceitos e técnicas em mente, não vai passar do primeiro parágrafo. Isso é o equivalente a um jardineiro querer usar pás, enxadas e motosserras para plantar uma semente. Assim como ferramentas de jardinagem, ferramentas de criação de histórias só são úteis quando você tem um terreno para trabalhar. Enquanto planta sementes de ideia na página, sua única preocupação deve ser em adubar o terreno para que, aos poucos, seus brotos cresçam e sobrevivam os primeiros estágios de desenvolvimento.

No livro “Palavra por Palavra”, Anne Lamott sugere que, para eliminar essa ansiedade inerente ao processo de criação, um escritor precisa focar seus esforços em pequenas tarefas. Em vez de pensar “Vou me sentar para escrever um livro,” pense “Tudo o que farei agora é descrever como um personagem está se sentindo nesta cena”.

Ao se concentrar seus esforços em uma única tarefa, a escrita de um livro se torna menos intimidante. Acredito que o mesmo se aplica ao processo de desenvolvimento do escritor. Se você focar em praticar a escrita de cada um dos ingredientes que compõe uma história de cada vez, o processo de aprendizado se torna menos intimidante. 

Neste momento, quero que você foque sua atenção em um dos vícios que mais empobrecem os textos de escritores iniciantes: o uso excessivo de adjetivos e certos tipos de advérbio. 

Adjetivos

Adjetivos são palavras que modificam o significado de substantivos. Você pode usá-los para atribuir uma característica (o carro vermelho), uma qualidade (a menina inteligente) ou um julgamento (o rapaz idiota) a uma pessoa, objeto ou situação. 

Adjetivos são os recursos descritivos mais básicos e genéricos que um escritor pode usar porque entregam ao leitor a responsabilidade de definir o significado específico dessas palavras. É um convite a elaboração de detalhes da história que você, escritor, poderia usar para destacar passagens importantes do texto e expressar sua visão artística com mais fidelidade. 

Advérbios

Advérbios são palavras que modificam o significado de adjetivos, outros advérbios e verbos. Assim como adjetivos, certos tipos de advérbio diminuem a força do texto porque representam ideias vagas e imprecisas. Preste especial atenção aos advérbios que expressam modo (bem, mal, extremamente, intensamente, alegremente, suavemente etc) e intensidade (muito, pouco, bastante, demais etc).

Na frase “Era uma casa suja, com um jardim extremamente mal cuidado”, o adjetivo “suja” e os advérbios “extremamente” e “mal” representam conceitos genéricos e, por isso, tal descrição carece de energia. Ao descrever um elemento importante da história, você precisa escolher palavras que evoquem imagens mais específicas. Seu objetivo é oferecer referências concretas para ajudar o leitor a imaginar com mais clareza o que você está tentando expressar. 

Eis outra forma de descrever a tal casa com mais especificidade: “A casa 613 era um dente sujo estragando o sorriso de casas brancas na Rua Almeida de Barros. As trepadeiras secas cobriam parte do telhado e da fachada, quase escondendo as janelas do segundo andar. Em frente à entrada, um jardim de terra dura e uma única árvore que mal se aguentava de pé. Era um sertão em plena cidade tropical.” 

Perceba como essa descrição reforça a ideia de negligência que o escritor deseja expressar. Como as imagens são mais precisas, a passagem ganha vida e sinaliza para o leitor a importância da compreensão do estado desta casa para o texto. 

Ao descrever detalhes importantes de algum elemento da história, faça comparações e ofereça referências. Use linguagem específica e simbólica para pintar imagens mais vívidas, expressar suas ideias de uma forma mais precisa e original, e direcionar a atenção do leitor para detalhes que merecem ser contemplados. Descreva somente detalhes que, no contexto de cada passagem, mereçam destaque.

Releia seus textos procurando por adjetivos e advérbios que poderiam ser substituídos por verbos e substantivos com o potencial de expressar suas ideias com mais intensidade. Por exemplo, ao invés de escrever “A rua estava tão silenciosa que era possível ouvir um alfinete cair”, encontre detalhes para destacar que ilustrem o quão silenciosas as ruas estavam. 

Um homem sozinho em uma rua escura. Ele caminha arrastando os pés. O som das solas contra o asfalto pode ser ouvido do décimo andar de um prédio, de onde o narrador desta cena fuma um cigarro enquanto observa o tal homem pela janela. Para encontrar imagens como estas, você precisa expandir sua imaginação para encontrar novas formas de descrever. Você precisa estar disposto a testar diferentes ideias.

Mas nem todas as imagens são importantes o suficiente para ganhar destaque e, portanto, nem toda descrição precisa ser vívida ou poética. Em certas passagens, objetividade é mais importante do que especificidade. Certas imagens e ações representam apenas momentos de transição no texto que têm como simples objetivo oferecer alguns referenciais para o leitor organizar a história em sua mente.  

Você não precisa se preocupar com nada disso enquanto escreve. Substituir adjetivos e advérbios faz parte do processo de edição do texto. Releia o que escreveu e siga o conselho de Anne Lamott: foque seus esforços em pequenas tarefas, concentre-se em refinar uma passagem do texto de cada vez. Tornar suas descrições mais específicas e vívidas é um bom lugar para começar.