Cenários 1

Transforme ideias vagas em descrições precisas

Muitos pensamentos fazem sentido dentro da nossa cabeça, mas quando os colocamos no papel, é comum que eles nos pareçam irreconhecíveis. Para nossa surpresa, ideias que pareciam originais e interessantes se revelam como clichês entediantes.

Isso acontece porque, em toda a sua sofisticação, o cérebro humano é, em essência, uma máquina de julgamentos. Julgar é formar uma opinião ou conclusão sobre alguma ideia, situação ou pessoa. O ser humano instintivamente julga tudo ao seu redor porque este é seu mecanismo mais primitivo de defesa.

Apesar de sua aparente sofisticação, nosso cérebro segue, acima de tudo, preocupado com sua função primordial: nos oferecer respostas rápidas para garantir nossa sobrevivência. Formamos opiniões instantâneas e superficiais para identificarmos possíveis ameaças a nossa integridade física, emocional ou social. Tais opiniões não são necessariamente incorretas ou falsas, mas elas representam apenas uma reação automática do nosso mecanismo de defesa mais instintivo.

Como nossa mente é uma fábrica de ideias vagas e abstratas, é comum que nossas primeiras tentativas de registrar pensamentos e emoções resultem em textos genéricos. Esse tipo de narrativa carece de personalidade e estilo porque não revela nada de especifico sobre a forma particular como o escritor interpreta e julga o mundo.

Escrever é fazer julgamentos de valor sobre certas situações, ideias, pessoas, pontos de vista, escolhas, comportamentos, ideologias, hábitos, papeis sociais etc.

Ao compartilhar algo que você escreveu com outras pessoas, você está indiretamente afirmando ter identificado e/ou compreendido certos detalhes ou certas verdades sobre as pessoas, as relações sociais e/ou a sociedade que merecem ser contempladas. “Leia meu texto” ou “Compre meu livro” é uma forma de dizer “Me escuta. Eu tenho algo para dizer sobre o mundo que merece sua atenção”.

Esse julgamento de que ideias merecem a atenção é inseparável da escrita de qualquer texto.

Em textos não ficcionais – como editoriais, resenhas e artigos – o escritor expressa as verdades em que acredita principalmente através de explicações, exemplos, opiniões e argumentos lógicos. Em narrativas de ficção, o escritor expressa as verdades em que acredita principalmente através das ações e reações de certos personagens, das relações de causa e consequência que estabelece entre os eventos do enredo, do destino que traça para cada participante da história e da forma como descreve detalhes do universo de ficção.

O grande desafio para quem deseja escrever bem é tirar sua mente do piloto automático para enxergar o mundo de uma forma mais complexa. Na prática, isso significa assumir uma postura mais proativa sobre a forma como você julga tudo ao seu redor. Em vez de contentar-se com as respostas automáticas e as primeiras impressões oferecidas pela sua mente, você precisa aprender a investigar suas ideias mais a fundo se fazendo perguntas que exijam respostas mais específicas, precisas e autênticas.

Considere a afirmação “A estação de trem era de dar medo”. Eis uma forma de investigar esse cenário mais a fundo. Que caraterísticas concretas e específicas dessa estação provocam uma sensação de inquietação? Que objetos, que sons, que cheiros, que imagens e que comportamentos de quem frequenta esse lugar evocam medo?

Talvez seja a forma como as lâmpadas florescentes piscam, ameaçando queimar a qualquer segundo. Ou a forma como o vento movimenta os sacos plásticos e a sujeira na plataforma. Ou o cheiro de carne crua do armazém na rua do lado que invade o nariz.

Que outros detalhes você poderia mencionar para descrever esta estação de trem de forma a fazer uma pessoa que nunca esteve lá concluir que esse local é, de fato, de dar medo?

Se questionar dessa forma dá trabalho e, caso você ainda não tenha percebido, esse é, justamente, o ofício do escritor. Esse exercício de formulação de perguntas tem o potencial de revelar o quão vagos e imprecisos seus pensamentos e emoções realmente são, apesar de, na sua mente, eles parecerem tão claros e objetivos. Reconhecer isso é o primeiro passo para começar a aperfeiçoar suas habilidades descritivas.